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A educação não vai mudar o mundo

Por Sara Camelo



Sra. Gruwell, seguimos um sistema baseado em anos de administração de uma escola. Precisa seguir esse sistema.


Não. Não vou. Com todo respeito, o que o programa faz é esconder esses garotos até terem idade para desaparecer.


Este trecho que você acabou de ler faz parte da conversa entre a professora Erin Gruwell e o chefe da Secretaria de Educação de Long Beach, Dr. Coun. O diálogo está inserido no filme Escritores da Liberdade, de 2007 e, apesar de descrever uma situação isolada dos alunos do Ensino Médio da escola Woodrow Wilson, se torna atual e necessário dentro da nossa realidade.


A produção, dirigida por Richard LaGravenese, passa-se no ano de 1994 em um cenário em que a violência, a morte e a tensão racial se proliferam a cada suspiro. Enquanto palavras como paz, felicidade e compaixão se tornam meras combinações entre letras aleatórias do alfabeto. A escola, considerada por muitos como um lugar onde novas possibilidades de transformação da realidade são mostradas, apresenta-se como mais um ambiente de desesperança. Foi então, nesse cenário, que a professora Gruwell começou a lecionar para os alunos do Programa de Interação Escolar. A maioria deles já havia passado pelo reformatório.


Paulo Freire estava certo quando disse que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção”. Para os alunos da sala 203, a primeira dessas possibilidades se apresentou como um pequeno diário que a professora Gruwell deu para cada um. Era uma forma dela se comunicar com eles, uma forma de ouvi-los. E, a partir daí, a gente se esbarra com um conceito muito significativo na construção do conhecimento: o diálogo.

Com o avanço da narrativa é possível perceber o contato dos estudantes com a história, a arte e a leitura, e como a relação entre essas áreas contribuiu para a formação educacional, mas também, pessoal de cada um. Perceber as falhas do sistema educacional, como a negação do acesso à educação de comunidades marginalizadas é o primeiro passo para uma jornada em busca da mudança da realidade. A ressignificação do passado foi um elemento fundamental no processo da formação do pensamento crítico daqueles alunos, afirmando mais uma vez, a necessidade de ver a educação com um olhar holístico.


O cenário de desilusão foi se transformando e abrindo espaço para uma narrativa sobre liberdade e emancipação. A senhora Gruwell se tornou “Senhora G”, e os alunos do reformatório, que antes eram apagados pelo próprio sistema educacional, ganharam autonomia sobre a sua própria história.


Pode parecer, para você que lê este texto, que estou falando sobre um história utópica que saiu da mente de um roteirista de cinema. Mas, não. Escritores da Liberdade é um filme baseado numa história real, de 1997. Na época, há mais de vinte anos, a professora Erin Gruwell e seus alunos criaram a Freedom Writers Foundation, uma organização sem fins lucrativos, que busca diminuir as taxas de abandono do Ensino Médio através da replicação e valorização do Método Freedom Writers. “A educação não muda o mundo. Ela transforma as pessoas. Porque as pessoas mudam o mundo.” Mais uma vez, Freire estava certo.



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